quinta-feira, 8 de julho de 2010

Cenouras em fogo - Vivências do Mé Zóchi rural (a caminho da capital)

Nada como uma descida de táxi até à capital para me animar, mesmo no dia em que descobri que as peças que há umas semanas atrás tinha mandado vir de Portugal para o meu carro foram substituídas, sem meu conhecimento, por pedaços de lata de refrigerante!


O táxi, um carro ligeiro, vinha completamente a abarrotar: motorista mais duas pessoas nos bancos da frente, quatro pessoas (eu mais 3 senhoras avantajadas) nos bancos de trás e o oitavo passageiro (que por acaso nem era extraterrestre nem nada) no portabagagens com a carga. Há ainda que referir que, mesmo para a média do estado de conservação do parque automóvel santomense, este táxi estava podre. E não digo isto apenas por raiva de a minha viatura não funcionar: a ferrugem já tinha consumido partes consideráveis da chaparia, a andar o carro fazia um barulho ensurdecedor, os vidros só abriam a alicate e a ignição só funcionava com chave de parafusos!

O tema da conversa não podia ser mais típico da ruralidade do Mé-Zóchi: O preço da cenoura no mercado, que neste dias chega a 60 contos o quilo (um conto são 1000 dobras e um euro vale 24500 dobras – e sim um milhão de dobras não chega a 50 euros, perguntem porquê ao Banco Mundial). A zona da Monte Café, no distrito de Mé-Zóchi, tem uma produção hortícola muito importante para o abastecimento do mercado na capital, em especial de produtos que preferem climas um pouco mais frescos (batata, feijão, cenoura, tomate). A indignação dos passageiros do tal táxi dirigiam-se sobretudo à especulação que é feita pelas palaiês (vendedoras ambulantes de vegetais, mas tambem peixe, frutos, sumos, doces ...). A prática corrente é que as mulheres dos produtores se desloquem bem cedo (uma/ duas da madrugada) para a cidade, onde vendem os produtos a intermediários (como as palaiês) ou para elas próprias venderem os produtos no mercado (Por isso é frequente ter que acordar a pessoa que queremos que nos venda qualquer coisa no mercado).


Ora, ao que parece, as palaiês são comerciantes bastante agressivas, que para além de terem uma grande conversa para convencer os fregueses a adquirir os seus produtos, mentem com uma leviandade desarmante em relação ao verdadeiro preço e qualidade dos produtos que podem oferecer, bem como sobre qualquer acordo prévio que possa ter existido!
E na gravana (altura seca do ano que está agora em vigor) esta especulação, que também não acredito ser só devida às palaiês, tem efeitos devastadores sobre os preços e capacidade de escoamento dos produtos no mercado, exaltando os ânimos de toda a gente (produtores, comerciantes e consumidores). E apesar disso a conversa deixou-me mesmo bem animado, porque até a situação mais revoltante estas pessoas conseguem encarar com bom espírito e muito leve leve. Obrigado pessoal do Mé-Zóchi, vocês são mesmo uma lição de vida!

1 comentário:

Sandra disse...

Tás a ver... há que ver as coisas por outro prisma e logo tudo te parece mais claro!!
Aproveita os teus dias por ai!!
Beijinhos
Sandrinha